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Não podemos viver sem palavras. Elas são nosso berço, nosso canto e recanto de afectos. Com elas pronunciámos o primeiro nome que no ventre nos agasalhou, até que a luz se abriu; com palavras adormecemos, embalados em doces braços de ternura; com palavras deixamos que os olhos cresçam deslumbrados para o maravilhoso espectáculo de sons e cores,com que a natureza nos brinda; com palavras SOMOS .
“Secretas vêm, cheias de memória”, diz Eugénio de Andrade,”Inseguras navegam/ barcos ou beijos as águas estremecem”.
A aventura das palavras continua aqui, no Recreio das Letras, espaço tecido de palavras e ponte de laços entre  Línguas e pessoas.
Façamos deste recreio um tempo de lazer,em que a criatividade, o saber e o descobrir possam conviver fraternalmente; façamos das palavras nossa festa e nosso espanto, pela alegria de as beijarmos “como quem morde rosas”.

Maria Isabel Fidalgo

A poesia não se inventou para cantar o amor — que de resto não existia ainda quando os primeiros homens cantaram. Ela nasceu com a necessidade de celebrar magnificamente os deuses, e de conservar na memória, pela sedução do ritmo, as leis da tribo. A adoração ou captação da divindade e a estabilidade social, eram então os dois altos e únicos cuidados humanos: — e a poesia tendeu sempre, e tenderá constantemente a resumir, nos conceitos mais puros, mais belos e mais concisos, as ideias que estão interessando e conduzindo os homens. Se a grande preocupação do nosso tempo fosse o amor — ainda admitiríamos que se arquivasse, por meio das artes da imprensa, cada suspiro de cada Francesca. Mas o amor é um sentimento extremamente raro entre as raças velhas e enfraquecidas. Os Romeus, as Julietas (para citar só este casal clássico) já não se repetem nem são quase possíveis nas nossas democracias, saturadas de cultura, torturadas pela ansia do bem-estar, cépticas, portanto egoístas, e movidas pelo vapor e pela electricidade. Mesmo nos crimes de amor, em que parece reviver, com a sua força primitiva e dominante, a paixão das raças novas, se descobrem logo factores lamentavelmente alheios ao amor, sendo os dois principais aqueles que mais caracterizam o nosso tempo: o interesse e a vaidade. Nestas condições, o amor que voltou a ser, como na Grécia, um Cupido pequenino e brincalhão, que esvoaça, surripiando aqui e além um prazer fugitivo — é removido para entre os cuidados subalternos do homem, muito para baixo do dinheiro, muito para baixo da política… É uma ocupação, sem malícia o digo, que se deixa para quando acabar o dia verdadeiro e útil, e com ele os negócios, as ideias, os interesses que prendem. «Já não há hoje nada de produtivo a fazer? Já não há nada de sério em que pensar?… Bem! Então, um pouco de perfume nas mãos, e abra-se a porta ao amor que espera!» A isto está reduzida a Vénus fatal e vencedora!
Ora quando uma arte teima em exprimir unicamente um sentimento que se tornou secundário nas preocupações do homem — ela própria se torna secundária, pouco atendida e perde a pouco e pouco a simpatia das inteligências. Por isso hoje, tão tenazmente, os editores se recusam a editar, e os leitores se recusam a ler, versos em que só se cante de amor e de rosas. E o artista que não quer ser uma voz clamando no deserto e um papel apodrecendo no armazém, começa a evitar o amor como tema essencial da sua obra.

Eça de Queirós, in ‘A Correspondência de Fradique Mendes’

FERNANDO
PESSOA
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Poesias de
Álvaro de Campos

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TABACARIA
Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.

Janelas do meu quarto,
Do meu quarto de um dos milhões do mundo que ninguém sabe quem é
(E se soubessem quem é, o que saberiam?),
Dais para o mistério de uma rua cruzada constantemente por gente,
Para uma rua inacessível a todos os pensamentos,
Real, impossivelmente real, certa, desconhecidamente certa,
Com o mistério das coisas por baixo das pedras e dos seres,
Com a morte a por umidade nas paredes e cabelos brancos nos homens,
Com o Destino a conduzir a carroça de tudo pela estrada de nada.

Estou hoje vencido, como se soubesse a verdade.
Estou hoje lúcido, como se estivesse para morrer,
E não tivesse mais irmandade com as coisas
Senão uma despedida, tornando-se esta casa e este lado da rua
A fileira de carruagens de um comboio, e uma partida apitada
De dentro da minha cabeça,
E uma sacudidela dos meus nervos e um ranger de ossos na ida.

Estou hoje perplexo, como quem pensou e achou e esqueceu.
Estou hoje dividido entre a lealdade que devo
À Tabacaria do outro lado da rua, como coisa real por fora,
E à sensação de que tudo é sonho, como coisa real por dentro.

Falhei em tudo.
Como não fiz propósito nenhum, talvez tudo fosse nada.
A aprendizagem que me deram,
Desci dela pela janela das traseiras da casa.
Fui até ao campo com grandes propósitos.
Mas lá encontrei só ervas e árvores,
E quando havia gente era igual à outra.
Saio da janela, sento-me numa cadeira. Em que hei de pensar?

Que sei eu do que serei, eu que não sei o que sou?
Ser o que penso? Mas penso tanta coisa!
E há tantos que pensam ser a mesma coisa que não pode haver tantos!
Gênio? Neste momento
Cem mil cérebros se concebem em sonho gênios como eu,
E a história não marcará, quem sabe?, nem um,
Nem haverá senão estrume de tantas conquistas futuras.
Não, não creio em mim.
Em todos os manicômios há doidos malucos com tantas certezas!
Eu, que não tenho nenhuma certeza, sou mais certo ou menos certo?
Não, nem em mim…
Em quantas mansardas e não-mansardas do mundo
Não estão nesta hora gênios-para-si-mesmos sonhando?
Quantas aspirações altas e nobres e lúcidas –
Sim, verdadeiramente altas e nobres e lúcidas -,
E quem sabe se realizáveis,
Nunca verão a luz do sol real nem acharão ouvidos de gente?
O mundo é para quem nasce para o conquistar
E não para quem sonha que pode conquistá-lo, ainda que tenha razão.
Tenho sonhado mais que o que Napoleão fez.
Tenho apertado ao peito hipotético mais humanidades do que Cristo,
Tenho feito filosofias em segredo que nenhum Kant escreveu.
Mas sou, e talvez serei sempre, o da mansarda,
Ainda que não more nela;
Serei sempre o que não nasceu para isso;
Serei sempre só o que tinha qualidades;
Serei sempre o que esperou que lhe abrissem a porta ao pé de uma parede sem porta,
E cantou a cantiga do Infinito numa capoeira,
E ouviu a voz de Deus num poço tapado.
Crer em mim? Não, nem em nada.
Derrame-me a Natureza sobre a cabeça ardente
O seu sol, a sua chava, o vento que me acha o cabelo,
E o resto que venha se vier, ou tiver que vir, ou não venha.
Escravos cardíacos das estrelas,
Conquistamos todo o mundo antes de nos levantar da cama;
Mas acordamos e ele é opaco,
Levantamo-nos e ele é alheio,
Saímos de casa e ele é a terra inteira,
Mais o sistema solar e a Via Láctea e o Indefinido.

(Come chocolates, pequena;
Come chocolates!
Olha que não há mais metafísica no mundo senão chocolates.
Olha que as religiões todas não ensinam mais que a confeitaria.
Come, pequena suja, come!
Pudesse eu comer chocolates com a mesma verdade com que comes!
Mas eu penso e, ao tirar o papel de prata, que é de folha de estanho,
Deito tudo para o chão, como tenho deitado a vida.)

Mas ao menos fica da amargura do que nunca serei
A caligrafia rápida destes versos,
Pórtico partido para o Impossível.
Mas ao menos consagro a mim mesmo um desprezo sem lágrimas,
Nobre ao menos no gesto largo com que atiro
A roupa suja que sou, em rol, pra o decurso das coisas,
E fico em casa sem camisa.

(Tu que consolas, que não existes e por isso consolas,
Ou deusa grega, concebida como estátua que fosse viva,
Ou patrícia romana, impossivelmente nobre e nefasta,
Ou princesa de trovadores, gentilíssima e colorida,
Ou marquesa do século dezoito, decotada e longínqua,
Ou cocote célebre do tempo dos nossos pais,
Ou não sei quê moderno – não concebo bem o quê –
Tudo isso, seja o que for, que sejas, se pode inspirar que inspire!
Meu coração é um balde despejado.
Como os que invocam espíritos invocam espíritos invoco
A mim mesmo e não encontro nada.
Chego à janela e vejo a rua com uma nitidez absoluta.
Vejo as lojas, vejo os passeios, vejo os carros que passam,
Vejo os entes vivos vestidos que se cruzam,
Vejo os cães que também existem,
E tudo isto me pesa como uma condenação ao degredo,
E tudo isto é estrangeiro, como tudo.)

Vivi, estudei, amei e até cri,
E hoje não há mendigo que eu não inveje só por não ser eu.
Olho a cada um os andrajos e as chagas e a mentira,
E penso: talvez nunca vivesses nem estudasses nem amasses nem cresses
(Porque é possível fazer a realidade de tudo isso sem fazer nada disso);
Talvez tenhas existido apenas, como um lagarto a quem cortam o rabo
E que é rabo para aquém do lagarto remexidamente

Fiz de mim o que não soube
E o que podia fazer de mim não o fiz.
O dominó que vesti era errado.
Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti, e perdi-me.
Quando quis tirar a máscara,
Estava pegada à cara.
Quando a tirei e me vi ao espelho,
Já tinha envelhecido.
Estava bêbado, já não sabia vestir o dominó que não tinha tirado.
Deitei fora a máscara e dormi no vestiário
Como um cão tolerado pela gerência
Por ser inofensivo
E vou escrever esta história para provar que sou sublime.

Essência musical dos meus versos inúteis,
Quem me dera encontrar-me como coisa que eu fizesse,
E não ficasse sempre defronte da Tabacaria de defronte,
Calcando aos pés a consciência de estar existindo,
Como um tapete em que um bêbado tropeça
Ou um capacho que os ciganos roubaram e não valia nada.

Mas o Dono da Tabacaria chegou à porta e ficou à porta.
Olho-o com o deconforto da cabeça mal voltada
E com o desconforto da alma mal-entendendo.
Ele morrerá e eu morrerei.
Ele deixará a tabuleta, eu deixarei os versos.
A certa altura morrerá a tabuleta também, os versos também.
Depois de certa altura morrerá a rua onde esteve a tabuleta,
E a língua em que foram escritos os versos.
Morrerá depois o planeta girante em que tudo isto se deu.
Em outros satélites de outros sistemas qualquer coisa como gente
Continuará fazendo coisas como versos e vivendo por baixo de coisas como tabuletas,

Sempre uma coisa defronte da outra,
Sempre uma coisa tão inútil como a outra,
Sempre o impossível tão estúpido como o real,
Sempre o mistério do fundo tão certo como o sono de mistério da superfície,
Sempre isto ou sempre outra coisa ou nem uma coisa nem outra.

Mas um homem entrou na Tabacaria (para comprar tabaco?)
E a realidade plausível cai de repente em cima de mim.
Semiergo-me enérgico, convencido, humano,
E vou tencionar escrever estes versos em que digo o contrário.

Acendo um cigarro ao pensar em escrevê-los
E saboreio no cigarro a libertação de todos os pensamentos.
Sigo o fumo como uma rota própria,
E gozo, num momento sensitivo e competente,
A libertação de todas as especulações
E a consciência de que a metafísica é uma consequência de estar mal disposto.

Depois deito-me para trás na cadeira
E continuo fumando.
Enquanto o Destino mo conceder, continuarei fumando.

(Se eu casasse com a filha da minha lavadeira
Talvez fosse feliz.)
Visto isto, levanto-me da cadeira. Vou à janela.
O homem saiu da Tabacaria (metendo troco na algibeira das calças?).
Ah, conheço-o; é o Esteves sem metafísica.
(O Dono da Tabacaria chegou à porta.)
Como por um instinto divino o Esteves voltou-se e viu-me.
Acenou-me adeus, gritei-lhe Adeus ó Esteves!, e o universo
Reconstruiu-se-me sem ideal nem esperança, e o Dono da Tabacaria sorriu.

Álvaro de Campos, 15-1-1928

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Camões, pois então!

CAMÕES, POIS ENTÃO!

por Maria Isabel Fidalgo a Quarta-feira, 16 de Fevereiro de 2011 às 21:16

Depois de morto prestaram-me

As honras que quis em vida,

E puseram-me nos Jerónimos,

Com gente ilustre e subida.

Deram-me o nome de Príncipe

Dos poetas portugueses,

E cá dentro deste túmulo,

Desato-me a rir às vezes.

 

Isto é chato pr’a caraças,

Melhor fora o cemitério,

Ouviam-se vozes de cima,

E quebrava-se este tédio.

Saio então para arejar,

E dou o braço a Pessoa,

E lá vamos respirar

O ar da nossa Lisboa.

 

Não se cumpriu Portugal!

Ele abatido e tristonho

Eu todo feito caruncho,

E cada vez mais mirolho. 

 

Desconhecem quem nós somos,

Os que nos vêem passar

Mesmo até os governantes

Que gostam de nós falar.

 

Nas noites mais aquecidas,

Em tempo de quente estio,

Dormimos junto do Tejo,

E choram-nos águas do rio.

 

Ninguém dá por falta nossa,

Na morada tumular,

E os ossos enregelam,         

No silêncio de rachar.

 

Mas há um dia no ano

Em que me enchem de graça

E pára até o país

Num dia cheio de Raça. 

 

Canta a voz da nossa Amália

Povo que lavas no rio,

Mas o eco dessa voz

É hostil como o vazio.

 

E lá nos vamos morrendo,

Sofridos desde a raiz,

O povo chorando o frio,

E nós chorando o país.

 

Mas há um dia no ano,

Em que me honram na praça,

E finge-se com ar postiço

Um outrora de Ser raça. 

Plantei a semente da ignorância

Escondida no armário da insuficiência artística

Sou vertente da existência

De uma forma mais ilusionista

Recolhi os frutos de uma sinfonia perdida

E procurando as folhas

Descobri as ilusões mais convictas

A sanidade humana

É o ritual de um parágrafo

Apagado pela memória da existência dele mesmo.

Margarida Lobato Costa – 11º A

Poema de Alexandra Mendes

domingo, 17 de janeiro de 2010

Min(uto)

Deixa-te estar assim.
Tu podes.
Não mexas um dedo, não mexas um músculo.
Eu vou pedir ao vento que não te mexa no cabelo.
Assim, podemos parar os ponteiros do relógio,
podemos parar o tempo, vendê-lo.

E posso começar a sussurrar-te.
Posso cantar baixinho,
que sei que vais ouvir.
Posso pôr um sorriso no peito,
que sei que o vais sentir.

E tu podes deixar-me viajar
em ti, sempre.
Podes confirmar que a verdade
nada mais é que a saudade,
e que a minha boca não mente.

O eterno é o amor.
O eterno é a música das folhas,
e dos rios, e do vento.
O eterno é o sabor
da vitória, do combate
contra o tempo.

Alexandra Mendes

o que vejo

Num papel sujo duma grande cidade

vê-se o rosto de sofrimento

uma dor que atravessa nosso corpo sem piedade

num papel sujo de um certo sítio

vê-se sangue duma alma sacrificada pela desilusão

num papel deitado fora pelo mundo

vê-se o desgosto e a solidão

de quem foi consumido pela traição

numa cidade como a tua

numa cidade como a nossa

um papel sujo deitado fora pelo mundo

caracteriza a mágoa do tempo perdido

 

Helena Vilar 20/6 às 19:46

Pedro, coloquei o teu texto sobre Saramago na minha página.
A dra Isabel Fidalgo sugeriu que se colocasse no blogue da escola como homenagem a Saramago. Que dizes?
Visita a minha página, se puderes e quiseres, e lê o que escreveram sobre o teu texto.
Parabéns!

Pedro Barros 20/6 às 20:17

Por mim nao há problema algum. Outro modo não tenho de homenagear o grande homem que Saramago foi, se bem, agora que leio as minhas palavras, tenho que as admitir um bocado vazias, não poderia, de modo algum, encerrar em tão poucas o verdadeiro sentido que a perda deste homem, brilhante em todos os aspectos, desorienta.
Agora lembro-me de umas palavras que havia escrito, faz já algum tempo, sobre Saramago. Deixo-as de igual modo aqui, se bem que, perante o sucedido, talvez percam um pouco o real sentido que para mim tiveram quando as escrevi.

Domingo, 3 de Maio de 2009

Peço com toda a força minha que nunca me comparem ou, tanto pior, equiparem a Saramago. Não que eu o faça do alto de uma vaidade estrangulada ou de uma modéstia arisca, nada disso se me pode colocar. Saramago é o meu mestre, ele não o sabe mas é a ele que eu vou buscar toda a linha que me faz o homem que sou e muito mais o escritor a que aspiro, e como aprendiz apenas, iniciado agora nas artes estranhas da escrita, não posso nunca permitir nem assumir que igualo de algum modo o mestre maior que me ensina, que me mostra, sem saber, porque eu aprendo de cada livro, onde uma parte do mestre está, e não da boca séria, do perfil tranquilo e do traço severo, do Saramago em pessoa, a beleza da palavra e a magnitude épica que podem ter certos ajuntamentos. E se peço que nunca me comparem ou igualem o estilo àquele do grande mestre, é porque não me acho capaz de o superar, e assim venero-o, ponho-o alto no estandarte absoluto, olho-o e tento a ele aspirar, mas nunca lhe quero ser igual, o gosto do caminho pela sombra é feito de percalços que me contentam. Ele não me conhece, por certo há-de morrer sem nunca ouvir o meu nome e sem nunca nos encontrarmos, porém eu conheço-o, o Saramago de cada livro é-me especial, porque ele me ensina sempre algo novo, uma palavra há muito esquecida ou nunca ouvida, me aviva o gosto da escrita quando o ócio parece encher os vazios profundos do corpo. E se no fundo não me quero comparar nunca a Saramago é porque acredito que nem eu nem ninguém, agora ou no futuro, conseguirá equiparar em génio a destreza e astúcia de tão grande homem, formado nas letras à custa do árduo trabalho, letrado pródigo do esforço, vindo das terras da Azinhaga da infância, cujas paredes da casa levantava com a força da memória, homem que sempre soube o lugar que ocupava e sempre soube dar a palavra ao oprimido povo. Gostava de lhe ser parecido, poder dizer daqui a muitos anos que foi ele, Saramago, o motivo desta incursão literária de que me vejo de súbito agraciado. E aí far-lhe-ei as honras máximas.
Bem sei que estas linhas todas soam a sensaboria, a mim assim me estão parecendo pelo modo como venho enrolando a escrita, para a frente e para trás e sem nunca largar desta cepa torta. Mas a bem dizer foi a ideia que tive hoje de escrever e não me posso contrair perante o brotoejo, senão espremer-lhe tudo para me ver livre do excesso, que as ideias se me vêm à cabeça não é para serem esquecidas, mas gravadas intemporalmente na folha de papel, que nem os anos nem as mil chuvas prometidas, intempéries previstas, hão-de limpar da face da terra, como o último evangelho da decadência em que estamos caindo. E isto sim é catastrofismo.