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Saramago morreu

18 de junho de 2010

 Helena Vilar – Pedro, já sabes com certeza. A Passarola do sonho tem mais uma «vontade». Assim Blimunda se apresse a recolhê-la.

Pedro Barros 19/6 às 21:08

“Termino. A voz que leu estas páginas quis ser o eco das vozes conjuntas das minhas personagens. Não tenho, a bem dizer, mais voz que a voz que elas tiverem. Perdoai-me se vos pareceu pouco isto que para mim é tudo.”

É com tristeza que recordo estas últimas palavras de Saramago, no seu Discurso perante a Real Academia Sueca, aquando da entrega do Prémio Nobel. Nunca, em outra qualquer altura, me pareceram tão reais e tão bonitas estas palavras, não encerram apenas o tão grande Discurso, encerram uma vida, se delas tirarmos o correcto sentido. Porque, de facto, entre nós só ficam as “vozes” das múltiplas personagens com que Saramago, ao longo destes tempos, nos fez a graça de apresentar, porém não é a mesma coisa, o sentimento de perda é grande, não mais escutaremos a voz calma, suave, sem exaltações,”capaz de pôr o universo em movimento apenas com duas palavras.” (diz ele do seu avô Jerónimo, de certo ainda sem saber quão bem lhe caberiam a si estas mesmas palavras, pois ele, de igual modo, sem necessitar de exageros nem de armas portentosas, era capaz de gerar a guerra, usando da força que tem a palavra, de todas as armas do homem a mais poderosa).

Tenho pena de o ver partir, de certo modo ele foi o meu mentor, se assim o posso dizer, foi ele que em mim gerou o gosto pela leitura e, acima de tudo, pela escrita.

Parte o homem, fica a palavra.

Helena Vilar 20/6 às 4:03

Eu sei que ele foi o teu mentor. Sei quanto gostavas, como eu, de o ler, embora não admirasse como tu o homem.
Sei que serás, pela escrita, um digno continuador deste escritor que, para mim, é genial e sempre me surpreende cada vez que o leio.
Agora, que o homem descanse em paz. Os seus livros são nossos.

“Ser Descontente É Ser Homem”- Fernando Pessoa

 

O que há em mim é sobretudo cansaço
Não disto nem daquilo,
Nem sequer de tudo ou de nada:
Cansaço assim mesmo, ele mesmo,
Cansaço.

A subtileza das sensações inúteis,
As paixões violentas por coisa nenhuma,
Os amores intensos por o suposto alguém.
Essas coisas todas –
Essas e o que faz falta nelas eternamente -;
Tudo isso faz um cansaço,
Este cansaço,
Cansaço.

Há sem dúvida quem ame o infinito,
Há sem dúvida quem deseje o impossível,
Há sem dúvida quem não queira nada –
Três tipos de idealistas, e eu nenhum deles:
Porque eu amo infinitamente o finito,
Porque eu desejo impossivelmente o possível,
Porque eu quero tudo, ou um pouco mais, se puder ser,
Ou até se não puder ser…

E o resultado?
Para eles a vida vivida ou sonhada,
Para eles o sonho sonhado ou vivido,
Para eles a média entre tudo e nada, isto é, isto…
Para mim só um grande, um profundo,
E, ah com que felicidade infecundo, cansaço,
Um supremíssimo cansaço.
Íssimo, íssimo. íssimo,
Cansaço…

Álvaro de Campos

Um texto cheio de humor, do já ” nosso” querido escritor açoriano, Daniel de Sá. Vai , tal como me foi enviado.
Deliciem-se. Eu já me ri sobejamente.

Recreio das Letras

 

  

 

Vai com um abraço. E que o Eça me desculpe.

Carta de Eça a Fradique Mendes
acerca das reformas sociais em Portugal
(FICÇÃO)

         Meu caro Fradique: certamente estarás lembrado da aposta que fizeste no Martinho. Por conta disso acabas de perder uma garrafa do melhor cognac, que convém não esqueças na tua próxima vinda a Portugal. Teimaste, e teimaste tanto que apostaste, que o António e o João não se casariam nunca. Pois acabam de casar-se. Com quem, quererás saber de pronto. Sossega, que eu não te deixarei por muito tempo a coçar a pulga. Se é voz do povo que não há João sem a sua Joana, do mesmo modo se dirá que há sempre uma Antónia para um qualquer António. A maravilha maior, meu caro, o espanto, a anormalidade, o pasmo é que a Joana deste João se chama António e a Antónia deste António é de sua graça João. Sim, casaram-se um com o outro. Como!?… De fraque e flor na lapela. Razão para muito folgar como nem sequer imaginas, porque uma primeira vez é sempre ocasião solene, tanto importando tratar-se de fruta temporã como de um baile de debutantes. E este casório foi, no género, uma estreia em Portugal. Mas já consta nos círculos de má-língua lisboeta – os do costume – que o presidente do ministério, que defendeu a lei nas Cortes, prepara novo decreto em que seja reconhecido o direito de quem quiser se casar consigo mesmo. A isso se há-de chamar, diz-se, casamento unipessoal.
Meu estimado amigo, não sou de rezas nem de beatices, bem sabes, mas julgo que um pouco de Deus não faria mal nenhum a esta gente, embora tenha a convicção de que um descrente, sendo culto e educado, pode ser um cidadão tão exemplar como o mais santo dos santos. O pior foi este governo ter-se tornado ateu antes de ser culto e educado. Se fosse culto, não julgaria que escrever leis é governar; se fosse educado, não se arrogaria o direito de fazer dos corredores do poder uma imensa e lamentável Travessa do Fala-Só.
         Disse Michelet, referindo-se àquele vendaval ético que é o Antero: “Se em Portugal restam quatro ou cinco homens como o autor das Odes Modernas, Portugal continua a ser um grande país vivo.” A desgraça, Fradique, é que, tal como Abraão não encontrou em Sodoma dez justos que aplacassem a ira divina, nem com lanterna à luz do meio-dia o bom do Michelet contaria entre nós metade disso. A que se deve este despautério, esta tontice engalanada, este deserto de ideias num governo tão cheio de cabeças? Acusa-se Lisboa de ser a culpada dos males do país, mas que é Lisboa ou quem é Lisboa? Lisboa é a província à procura de um lugar ao sol. Não há contabilista de Trás-os-Montes que não sonhe com uma carreira na capital, se possível chegando a ministro e talvez bancário. Não há regedor do Algarve que não sofra o desvario de julgar que um dia pode ser presidente do ministério. Nem há poeta de aldeia que não teime em chegar a bardo, de bebedeira e rima, nas tabernas de bairro e nas redacções dos jornais de Lisboa. A única condição é haver quem os promova. O resto é o trivial nestas deambulações da vida. Porque, em Lisboa, primeiro se faz o nome e depois a obra.
         É certo que da maior parte desta gente se poderia dizer o que disseste do comendador Pinho em carta a Madame de Jouarre “É o comendador Pinho um cidadão inútil? Não, certamente. Dum Pinho nunca pode sair ideia ou acto, afirmação ou negação que desmanche a paz do Estado.” O pior, meu caro Fradique, é que há Pinhos desses que sobem à glória efémera de se julgarem o Estado.

 

Daniel de Sá.

Aquela cativa
que me tem cativo,
porque nela vivo
já não quer que viva.
Eu nunca vi rosa
em suaves molhos,
que para meus olhos
fosse mais fermosa.

Nem no campo flores,
nem no céu estrelas
me parecem belas
como os meus amores.
Rosto singular,
olhos sossegados,
pretos e cansados,
mas não de matar.

Uma graça viva,
que neles lhe mora,
para ser senhora
de quem é cativa.
Pretos os cabelos,
onde o povo vão
perde opinião
que os louros são belos.

Pretidão de Amor,
tão doce a figura,
que a neve lhe jura
que trocara a cor.
Leda mansidão,
que o siso acompanha;
bem parece estranha,
mas bárbara não.

Presença serena
que a tormenta amansa;
nela, enfim, descansa
toda a minha pena.
Esta é a cativa
que me tem cativo;
e, pois nela vivo,
é força que viva.

NATAL SEM MAGIA

 

Foges de mim, ó noite de magia
Foste rápida e cruel no abandono
Nunca mais nascerá um novo dia
De que o Natal reclame ser o dono

Nem o cheiro a filhós permaneceu
Na chaminé vazia dos presentes
A imagem desse tempo se perdeu
Só resta a dos meus pais pr´a sempre  ausentes

Tu, Menino Jesus, que é que me dizes?
Queres os homens sempre uns infelizes
Sozinhos e perdidos, sem abrigo?

Desculpa, mas não quero a tua ajuda
Nem uma luz distante que me iluda
—Se quiseres ficar, janta comigo.

Manuel Estrada

Feliz Natal, Menino Jesus!

O Recreio das Letras deseja a todos os Leitores um Feliz Natal e um Óptimo Ano Novo!

 

Que dizer de ti, Jesus
que já não esteja dito?
Ao menos, no Natal,
retiram-te da cruz
e retornas à riqueza da tua criação:
à luz das estrelas,
à verdura do musgo,
ao aconchego do burrinho
que carregou contente
o ventre quente de tua mãe,
às ovelhas e aos pastores
e ao curral, onde também
uma vaquinha com seu bafo
te agasalhou do fino frio
de Dezembro;
à àgua das lavadeiras,
e aos montes com neve,
e ao mistério da noite.
Não sei se houve pranto
nas hora em que saíste,
da doçura do manto,
mas na terra houve canto
e no presépio sorris
eternamente tranquilo,
sem o calvário de espinhos
e sem a pressa de cresceres
para a quaresma eterna.
Ao menos no Natal,
retiram-te da cruz
e dela todos fingem
o esquecimento,
até os das esmolas.
Deixam-te ser menino,
apenas menino de todos nós
(e isto desde a era dos avós!)
até que o novo ano chegue
e as janeiras se cantem
em dia de reis,
por memória tua.
Esquecem-te na cruz
e reverberas de luz
e faz-se a festa
do teu nascimento
com rabanadas de pão,
(algumas sofisticadas!)
e aletria e mexidos,
e bolo-rei, ó Rei menino,
e bolos conventuais
nas mesas mais frugais!
Abençoado sejas
por renasceres
sem te cansares,
menino Jesus.
Que nome lindo,
filho de Deus!
Podias vir mais vezes
e trazeres contigo as estrelas
e o mistério dessa noite.
Descansarias da cruz onde
te pregaram eternamente
e a gente amava-te sem chagas
em presépios de musgo
e de pastores.
Talvez ficasses livre do sacrifício
e a tua mãe pudesse sorrir
sem o horror da cruz onde
te pregaram eternamente,
amor em flor!
Dorme menino, dorme, Jesus,
que no presépio velam por ti
o burro, a vaquinha,
Maria e José
e os pastores
e as ovelhinhas,
e os meninos
que sonham contigo,
Jesus renascido!
Dorme, pérola nua
desafogada de crivos,
dorme “menino de sua mãe”
que ainda é dia
e a água é pura
na consoada.
Dorme, Jesus,
dorme tranquilo
sem dor nem mal
e que Deus te dê
um FELIZ NATAL!

Maria Isabel Fidalgo